ARTIGO: A verdade e a memória dos jornalistas

ARTIGO: A verdade e a memória dos jornalistas

*por Júlio Carignano

Recuperar a memória, não com o objetivo de saudar o passado, mas para que ele seja reescrito com páginas diferentes. Essa frase, de autoria do escritor uruguaio Eduardo Galeano foi dita ao jornalista da ESPN Brasil, Lucio de Castro, no documentário Memórias de Chumbo: O futebol nos tempos do Condor.  A série – dividida em quatro parte – mostra como as ditaduras militares na América do Sul que integraram a Operação Condor estiveram presentes no esporte, transformado na época em ferramenta de propaganda pelos regimes autoritários.

A Operação Condor – a multinacional do terror criada para exterminar a oposição de esquerda aos governos ditatoriais – foi o grande elo entre os países que passaram por um período triste da história do Cone Sul. Período esse que é lembrado no fim do mês de março. Nossos ‘hermanos’ lembraram os 37 anos do golpe na Argentina no último dia 24 de março, enquanto que no Brasil tivemos o nosso ‘Dia D’ iniciado no dia 31 de março e concluído no dia 1º de abril.

Esse tema sempre me chamou a atenção, não somente enquanto ‘curioso’ e entusiasta da história de nosso continente, mas também na condição de jornalista profissional. Sob as garras do Condor, o direito à informação foi violentado de forma brutal e profissionais da imprensa foram perseguidos, torturados e assassinados nessa longa noite que perdurou 21 anos em nosso país.

Atualmente temos o debate acerca da Comissão da Memória e Verdade e é de fundamental importância a participação de jornalistas nesse processo, uma vez que a categoria tem muito a contribuir. Em novembro do ano passado tive a oportunidade de participar do 35º Congresso Nacional de Jornalistas, em Rio Branco no Acre e, de toda a programação, o que mais me chamou a atenção foi uma palestra de Gilney Viana, atual Assessor Especial da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e coordenador do Projeto Direito à Memória e à Verdade da SDH.

Na oportunidade, o ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) fez uma convocação que acho primordial; um chamado aos jornalistas brasileiros a assumirem uma postura militante em relação aos crimes e violações contra os direitos humanos ocorridos no período da ditadura civil-militar. Precisamos assumir uma postura, uma posição, uma vez que companheiros foram exilados, torturados e mortos no período.

Sindicatos de jornalistas sofreram intervenções e as redações foram as primeiras a serem visitados pelos militares. Os profissionais de esquerda, àqueles que trabalhavam com comunicação de alguma forma e que eram ligados aos meios alternativos foram os primeiros perseguidos pelo regime. Levantamentos preliminares apontam que pelo menos 24 jornalistas teriam sido mortos durante os chamados ‘Anos de Chumbo’ no Brasil, além das situações de violências, torturas e desaparecimentos.

Alguns casos são emblemáticos, como do jornalista Mario Alves, que dirigiu os jornais Novos Rumos e Voz Operária, morto aos 46 anos sob brutais torturas em 17 de janeiro de 1970 na cidade do Rio de Janeiro e, é claro, a morte de Vladimir Herzog que recentemente ganhou um novo capítulo com sua famílias recebendo um novo atestado de óbito após 38 anos.

Antes de ser assassinado pelos torturadores do Doi-Codi, Vlado – como era conhecido – foi vítima de uma campanha difamatória pela parte da imprensa que apoiou o golpe militar. A exigência era que “no mínimo” ele fosse preso e silenciado em virtude de suas posições. A campanha fascista contra Herzog foi denunciada por alguns colegas, como Alberto Dines (Observatório da Imprensa), porém o que não impediu o desfecho trágico de Vlado.

Episódios de uma ditadura odiosa, que atacou frontalmente a liberdade de imprensa, de expressão e de informação. Um regime que fez prisões sob a forma de sequestro, deu um golpe de estado, destitui um presidente eleito, acabou com partidos políticos, impondo o bipartidarismo no país. Um regime que jogou na ilegalidade dezenas, centenas, milhares de pessoas. É reducionismo falar em ditadura e citar apenas as torturas e assassinatos, pois foi uma época que foi além, que cassou direitos da classe trabalhadora, direitos civis, cassou a esperança de um povo diante do domínio ideológico imposto pelos golpistas.

No momento que recordamos os 49 anos do golpe faz-se necessário voltarmos nossos ‘olhares jornalísticos’ para as violências sofridas pela nossa categoria na ditadura civil-militar, para os casos de censura e cerceamento. A criação de uma Comissão da Verdade da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) vem neste sentido. É uma iniciativa importante, uma vez que a categoria tem sua história marcada por agressões sofridas e pela resistência. É importante essa constituição de relatos, documentos, arquivos audiovisuais, pois como bem aponta Gilney Viana “a batalha do passado se refere ao presente e ao futuro”.

*Júlio César Carignano é diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná e assessor de imprensa do mandato do vereador Paulo Porto