Em atlas, pesquisadora da USP apresenta  geografia do uso de agrotóxicos no Brasil

Em atlas, pesquisadora da USP apresenta geografia do uso de agrotóxicos no Brasil

“O que este notável trabalho, uma obra de coragem, de Larissa Mies Bombardi nos permite fazer, no entanto, é apontar uma verdade muitas vezes intangível, escondida e evasiva. Uma verdade que não está bem, que se infiltra no nosso ar, nos nossos  rios, nos nossos solos, nas nossas casas, nas nossas veias e pode ser nomeada. Está marcada. É comercializada e sua venda é imposta aos agricultores pobres. Seus diferentes nomes estão em inglês, francês e alemão. Esses nomes são infiltrados por laboratórios em Washington, Londres, Paris e Berlim, a partir dos corredores abertos pela vista grossa de governos e inescrupulosos cientistas treinados para focar em problemas imediatos e não em crises globais. Patentes são concedias aos fabricantes, que vivem distantes das mulheres, homens e crianças, cujas vidas, experiências, frustrações e aspirações estão por trás das dramáticas estatísticas que são apresentadas por estes mapas. Patentes que retornam lucro a cada novo produto criado e tem como único propósito matar. Fungi-“cida”, herbi-“cida”, inseti-“cida”, pesti-“cida”. O sulfixo “cida” tem como sentido literal “matar”. Devemos agora acrescentar homi-“cidio”, infanti-“cidio”, sui-“cidio” e populi-“cidio”, às façanhas destes produtos químicos? Infiltração a partir de aviões, dos topos das montanhas aos rios, dos ombros dos trabalhadores às roupas, lares e jardins, da cidade à aldeia e das fábricas aos nossos pratos. Condenados por decisões tomadas em continentes distantes”.

É assim que o professor de Universidade de Strathclyde, na Escócia, Brian Garvey, apresenta a pesquisa da professora  Larissa Mies Bombardi da Faculdade de geografia da USP. O “Atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia”, trata-se de um levantamento de dados, baseado em fontes oficiais, sobre o consumo de agrotóxicos no Brasil. O estudo também faz um paralelo entre a nossa realidade e o que acontece na União Européia.

 

Alimento X Commodities

Em sua pesquisa, Larissa destaca que em 2013 a soja ocupava o segundo lugar nas exportações e em 2016, passou a ocupar a primeira posição. “Esse aumento na importância relativa dos produtos agropecuários na pauta de exportações brasileiras é lastreado por um aumento absoluto no cultivo e/ou criatório destes “produtos””, destacou ela. Citando Marx, a pesquisadora reforçou que o alimento, quando revertido em commodity ele perde sua característica de alimento e passa a ser considerado produto. “Ao se transformar em commodity, e mesmo em energia, o alimento tem destituído (ou deslocado do primeiro plano) o seu valor de uso enquanto forma de alimentação humana’”, destacou.

Para ela, o fato de o Brasil seguir importando produtos como etanol e milho – estando na posição de um entre os principais exportadores deste produto – “desnuda uma lógica que é avessa à da produção de alimentos e da soberania nacional seja ela alimentar ou energética”.

 

Agrotóxicos como consequência

A pesquisa destaca que o avanço de culturas e produção pecuária voltadas para as commodities tem tido como base o uso massivo de agrotóxicos. Para se ter ideia, o Brasil consome cerca de 20% de todo o agrotóxico comercializado no mundo. “Este consumo tem aumentado de forma muito significativa nos últimos anos. (…) O consumo total de agrotóxicos no Brasil saltou de 170.000 toneladas no ano 2000 para 5000.000 toneladas em 2014, ou seja, um aumento de 135% em um período de apenas 15 anos”, destacou a pesquisadora, que aponta que o Brasil também está entre os países com menos restrições ao uso destas substâncias.

“O uso massivo de agrotóxicos no Brasil, como foi possível desvendar neste processo de pesquisa, está além da quantidade utilizada – ou seja, além do país utilizar cerca de 1/5 de todo o agrotóxico comercializado mundialmente (Pelaez,2015); – ele está também na “qualidade” desta utilização. A “qualidade” da utilização de agrotóxicos no Brasil se refere tanto à diversidade de tipos de agrotóxicos, quanto à forma como são usados, por exemplo, por meio da pulverização aérea que no Brasil é permitida e que é proibida na União Europeia”, comentou.

 

As consequências dos agrotóxicos

No que diz respeito à consequência da “qualidade” deste uso, a pesquisadora destaca que o estado do Paraná está em primeiro lugar (com um total de 231 mortes) em intoxicação por agrotóxicos. “No total, no país, neste período de 2007 a 2014, tivemos 1186 casos de mortes por intoxicação por agrotóxicos de uso agrícola, o que significa uma média de 148 mortes por ano ou o equivalente a uma a cada dois dias e meio. Isto significa que, no Brasil, em números oficiais, a cada dois dias e meio uma pessoa morre intoxicada por agrotóxicos de uso agrícola”, destacou.

 

O Atlas encontra-se no formato digital para download gratuito no link: https://drive.google.com/file/d/1ci7nzJPm_J6XYNkdv_rt-nbFmOETH80G/view