Indígenas são ouvidos pela Comissão da Verdade em Cascavel

Indígenas são ouvidos pela Comissão da Verdade em Cascavel

Lideranças indígenas foram ouvidas na última sexta-feira (21/03) durante os trabalhos da Comissão Estadual da Verdade (CEV) em Cascavel. O grupo, criado para fazer um trabalho de apuração de crimes e violações de direitos humanos durante a ditadura militar, realizou audiência pública no auditório da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná). Os dois dias de trabalho foram concluídos com depoimentos das comunidades tradicionais sobre os impacto da construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu e do Parque Nacional de Itaipu.

O procurador do Ministério Público do Paraná, Olympio de Sá Sotto Maior Neto, a advogada Ivete Caribé da Rocha e o advogado Yves Consentino Cordeiro, representantes da CEV, além da antropóloga Malu Brant, foram recebidos na tarde desta sexta-feira pelo vereador Paulo Porto (PCdoB) na Câmara Municipal de Cascavel, local onde foi dado continuidade aos depoimentos iniciados na Unioeste. Caciques, rezadores, professores e lideranças políticas relembraram formas de violência aplicadas por militares, policiais, agentes do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e do SPI (Serviço de Proteção ao Índio), órgão que foi extinto para dar lugar a FUNAI (Fundação Nacional do Índio).

A audiência trouxe registros documentais e relatos orais de queima de casas, ameaças e agressões físicas, com envolvimento de policiais e servidores do Incra na década de 1970, em especial com os guarani na aldeia de Ocoy e Colônia Guarani, na região do antigo território de Foz do Iguaçu. Essas violências aconteceram no contexto da construção de usina durante a administração da Funai e Itaipu pelo coronel Nobre da Veiga e o general José Costa Cavalcanti.

A antropóloga Malu Brant destacou que até hoje a Itaipu tem dificuldade de reconhecer e saldar a dívida histórica que gerou com a remoção de dezenas de comunidades Guarani para formação de seu lago. De acordo com informações colhidas pela antropóloga, na região de Itaipu, do lado brasileiro, existiam ao menos 32 aldeias Guarani. Elas desapareceram entre 1940 e 1982, período entre a criação do Parque Nacional do Iguaçu (1939) e o alagamento para formação do lago Itaipu (1982). Pelo menos nove aldeias foram alagadas pela usina, de acordo com o levantamento de Malu, que iniciou pesquisa na região por solicitação da Justiça Federal de Foz do Iguaçu. “Aquela época a ordem era: os animais vão para o refúgio da Itaipu, os índios expulsos para o Paraguai”, conta.

As lideranças Guarani também trouxeram relatos marcantes de intervenção de agentes de segurança. “Os brancos [militares] chegavam com caminhões e mandavam todos os índios subirem. Fomos levados todos para o Rio das Cobras [região de Laranjeiras do Sul]”, conta o chamoy (rezador) Onório Karai Benitez, de 76 anos, ex-morador de Jacutinga, uma das aldeias alagadas e que contava com cerca de 70 famílias indígenas. “Aqueles que tentavam fugir os policiais atiravam nas pernas”, conclui Malu Brant.

Paulo Porto, que é historiador e indigenista, destacou a importância dos trabalhos da CEV em ouvir os povos originários e a oportunidade da Câmara de Vereadores de receber a audiência. “A memória é um campo em disputa, especialmente agora com a lembrança dos 50 anos do golpe militar. Além dessa recuperação e restabelecimento da justiça, essa audiência foi uma oportunidade de trazermos à tona a questão do preconceito e intolerância e a força da luta dos indígenas pelo território no Oeste do Paraná, em especial a preocupante situação em Guaíra e Terra Roxa. Que essa Casa de Leis se pinte cada vez mais com as cores do povo e dos povos da terra”.

Audiência pública

Além dos depoimentos com os indígenas, a audiência da Comissão da Verdade em Cascavel, organizada pelo Comitê Memória Verdade e Justiça do Oeste do Paraná, ouviu aqueles que resistiram ao golpe militar e familiares de vítimas da ditadura na região Oeste e Sudoeste. Entre os depoentes estiveram o jornalista Aluizio Ferreira Palmar, ex-militante do MR-8 (Movimento 8 de Outubro) e da VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária), os irmãos Valdetar e Abraão Dorneles, sobreviventes da Guerrilha de Três Passos, o aposentado Alberto Favaro, que organizou a VAR-Palmares em Nova Aurora, além de ex-integrantes dos chamados “Grupo dos Onze” em municípios como Capanema e Santo Antonio do Sudoeste.

Crédito: Julio Carignano

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