ARTIGO | Che Guevara: 46 anos de renascimentos

ARTIGO | Che Guevara: 46 anos de renascimentos

* Por Júlio Carignano

“A história não necessitou de que passasse o tempo para fazer-se lenda, agora me lembro da força profunda e bela que emanava, sem cessar, dentro deste homem. Tinha, recordo, um olhar como a alvorada: aquela maneira de olhar dos homens que creem”. Esse fragmento é retirado da obra ‘CHE GUEVARA – Sierra Maestra: da guerrilha ao poder’, do escritor e jornalista Eduardo Galeano.

O livro foi escrito pelo uruguaio em 1967, ano da morte do militante revolucionário Ernesto Guevara de La Sierna, conhecido também como Che, parafraseando título que dá nome a uma obra de Paco Ignacio Taibo, que na despretensiosa opinião deste blogueiro é uma das melhores biografias do guerrilheiro argentino.

Neste ano recordamos os 46 anos da morte do revolucionário. No dia 8 de outubro de 1967, ele foi capturado após combate com o exército boliviano e homens da CIA, num vale conhecido como Quebrada del Churo. Um dia depois de ser preso, Guevara foi executado no povoado de La Higuera. A data do combate inspirou no Brasil a criação do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), grupo de dissidentes do PCB (Partido Comunista Brasileiro), que durante a década de 1960, atuou na luta contra a ditadura militar e por um estado socialista brasileiro.

Em Cuba, o argentino foi um dos protagonistas da revolução que derrubou o ditador Fulgêncio Batista e fez da ilha – antes um quintal do jet-set estadunidense – uma nação soberana. A ilha caribenha passou a adotar o 8 de Outubro como o “Dia do Guerrilheiro Heróico”. Após sua morte nas serras bolivianas, Che foi transformado em mito – o que ainda dá arrepios nos ‘reaças de plantão’ que há mais de 40 anos tentam intensamente manchar a imagem do revolucionário.

Para algumas vozes conservadoras e reacionárias, o argentino era um “frio assassino”, um “mau estrategista”, um “péssimo burocrata”, enfim, sobram adjetivações. A última delas e mais esdrúxula – que de praxe foi repercutida pela famosa revista semanal em suas páginas – é a “verdade inconveniente” de que Che Guevara cheirava mal por não gostar de tomar banho, o que lhe rendeu o apelido de “Chancho”.

Quando se pretende deturpar fatos é interessante visualizar como a linguagem é empregada. A trajetória de Che é uma amostra, mas temos como um dos principais exemplos o período da Guerra Fria, onde os ‘inimigos’ eram tachados de terroristas, guerrilheiros e rebeldes, e os aliados dos EUA, sempre ‘combatentes da liberdade’.

Deixando as deturpações de lado, Ernesto Che Guevara acreditava na revolução latino-americana e deixou um legado de solidariedade e voluntarismo, um compromisso com a luta pela libertação dos povos, revivendo grandes libertadores de nosso continente, como Bolívar e San Martin.

Nas palavras de Eduardo Galeano, “Che Guevara acreditava na revolução em seu doloroso processo, tinha fé na nova condição humana que o socialismo deveria engendrar”. Ainda que isso incomode alguns, figuras como ‘El chancho’ seguem inspirando a imaginação, os sonhos e anseios das camadas que seguem sendo reprimidas e exploradas em nossa ‘Pátria Grande’.

* Júlio Carignano é diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná e assessor de imprensa do mandato do vereador Paulo Porto