ARTIGO: FEBEPÁ NO VELHO OESTE

         19/02/2013

Nos anos sessenta, em plena ditadura militar, era famoso um cronista denominado Stanislaw Ponte Preta, conhecido por sua fina ironia e inteligência a serviço das hostes progressistas. Stanislaw vibrava com a pouca erudição – para dizer no mínimo – dos argumentos esgrimidos pela direitona, a ponto de escrever um genial livro de crônicas (na verdade uma coletânea) cujo nome era FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assolam o País – dirigido contra as bobagens ditas e executadas pelos militares prontos para verem e apontarem um comunista de baixo de cama.

Em uma dessas crônicas, Stanislaw comenta, por exemplo, da ordem de prisão dada por um delegado do interior de Minas Gerais ao autor da peça de teatro “Édipo Rei” por considerar a peça um “atentado aos bons costumes” da época. Pena que o autor Sófocles já havia falecido em 406 A.C. Acredito que nosso Stanislaw ficaria surpreso em como o FEBEAPÁ criou raízes e sobrevive mesmo nos bons e arejados tempos de redemocratização brasileira, prova que ignorância é ignorância em qualquer regime.
Basta atentarmos para o recente (e sério) conflito que vem se agudizando na região oeste do Paraná, em especial em Guaíra e Terra Roxa entre fazendeiros proprietários e indígenas Guarani. Apesar deste conflito não ser novo na história do Brasil e da humanidade – a luta territorial entre senhores de terras e comunidades tradicionais – tudo indica que a Sociedade Rural de Palotina está exagerando ao criar uma nova e estranha corrente antropológica – que ganharia fácil o primeiro prêmio do antigo FEBEAPÁ de Stanislaw Ponte Preta. Segundo representantes desta entidade, os municípios de Guaíra e Terra Roxa seriam vítimas de uma “invasão de indígenas” que estaria se apossando tanto das terras da Itaipu como as “nossas matas e reservas naturais” (sic); apesar de tudo o que conhecemos dizer exatamente ao contrário.

Porém, o argumento vai mais longe ao afirmar categoricamente que essa “perigosa” invasão seria feita por estrangeiros, pois, cientificamente esses indígenas “sequer são brasileiros, afinal, falam Guarani e não falam português”, isto é, com certeza seriam paraguaios. Entretanto, a grande pérola desta instigante argumentação é de que em Guaíra “jamais houveram indígenas” a não ser estes trazidos pela FUNAI, obviamente em armação com o governo paraguaio. O fato de Guaíra e Terra Roxa serem um dos maiores sítios arqueológicos do Brasil e palco de grandes aldeamentos indígenas e reduções jesuíticas, seria – claro – uma fantasia histórica, assim como o holocausto…

Todos estes estranhos argumentos foram proferidos em recente entrevista no Show Rural Coopavel onde este grupo de “manifestantes” entregou um documento a presidente Dilma Rousseff, para quem duvidar que eles realmente merecem participar do festival, basta acessar o link http://www.youtube.com/watch?v=VJPsDvMzNiI.

Acompanhem os próximos capítulos desta interessante saga carregada de alta “argumentação” histórica e antropológica.

*Por  Paulo Porto Borges, Professor universitário, fotógrafo e Vereador de Cascavel