O retorno do FEBEAPÁ

O retorno do FEBEAPÁ

* Por Paulo Porto

O jornalista Sergio Porto, conhecido como Stalisnaw Ponte Preta, fazia nos anos 60 uma espécie de comédia de costumes na perspectiva de uma elite economia burra e preconceituosa. Uma elite que tinha medo da ‘cubanização’ do Brasil, da invasão comunista e uma fraca crença da democracia. A partir destes relatos ele escreveu o livro FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assolam o País). Caso estivesse vivo, Stalisnaw não hesitaria em afirmar que os “cocorocas” (termo que denominava essa ‘elite’) voltaram e seguem com suas passeatas por Deus, Família e Propriedade. Algumas pérolas do nosso recente FEABEAPÁ que brada: ‘No Brasil não há democracia’, ‘Intervenção militar já’, ‘SOS Forças Armadas’, ‘Contra a invasão comunista’ ou ‘Jair Bolsonaro para presidente: um homem preparado e competente’.

Como nos anos 60, a grande mídia brasileira tem parcela de responsabilidade neste fenômeno, em especial, por plantar no imaginário popular a sensação de um governo autoritário. Acompanhamos a transformação de veículos de comunicação em instituições partidárias. Na tentativa de monitorar e dar cientificidade para este fenômeno que estamos tratando, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro criou um estudo denominado “Manchetômetro” que acompanhou a cobertura midiática das eleições de 2014 e chegou a conclusão da imensa participação dos veículos monitorados como o ‘O Globo’, ‘Estado de São Paulo’, ‘Folha de São Paulo’, ‘Jornal Nacional’ e, obviamente a ‘VEJA’, na campanha de Aécio Neves. Segundo a pesquisa, na semana que antecedeu as eleições o jornal O Globo apresentou 35 manchetes de caráter negativo a presidente Dilma Rousseff contra apenas quatro manchetes de caráter negativo a candidatura tucana.

Não resta dúvida da parcial e descarada participação da grande mídia nas eleições, algo somente comparado ao pleito de 1989, na qual se atribuí a eleição de Fernando Collor ao adesismo incondicional dos grandes veículos de comunicação. Como não lembrar da histórica edição do Jornal Nacional do último debate, do sequestro do empresário Abílio Diniz transmitido ao vivo onde os sequestradores foram forçados pelo então Secretário de Segurança Luis Antonio Fleury a posarem para toda a imprensa nacional vestidos com camisetas do Partido dos Trabalhadores. Inúmeros estudos comprovam que estes fatos foram determinantes para a derrota do então candidato Lula.

Entretanto, a questão é que ao manipular e mentir descaradamente na perspectiva de seus próprios interesses esta mesma imprensa também termina por construir um público ávido destas mesmas mentiras para justificar também seus próprios interesses. Como já disse o célebre jornalista norte-americano Joseph Pulitzer: “Com o tempo uma imprensa cínica, mercenária e demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”. E foi exatamente este público, chamado por Sergio Porto de “cocorocas”, que logo após uma legítima eleição desde ano desfilou seu ódio e sua ignorância na Avenida Paulista. Estejamos atentos!

* Paulo Porto é professor universitário, fotógrafo e vereador do PCdoB em Cascavel


Artigo publicado originalmente na edição de novembro do Extra Pauta, jornal do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindijor-PR)