Povos indígenas: “Que progresso é esse?”

Povos indígenas: “Que progresso é esse?”

O ano de 2012 e o início de 2013 podem ser considerados marcos na luta dos direitos dos povos indígenas. Belo Monte e a luta dos Guarani-Kaiowá, em Iguatemi (MS), são os casos que ganharam maior repercussão nacionalmente. Porém, junto à maior visibilidade da causa indígena, maior a criminalização desses povos que lutam pela demarcação de suas terras tradicionais.

Na região Oeste do Paraná, a luta indígena também tem ganhado destaque, especialmente na região de Guaíra e Terra Roxa, um dos maiores sítios arqueológicos do Brasil e cenários de grandes aldeamentos e reduções jesuíticas. A região passou a ser considerada uma “área de tensão”, terra de conflitos envolvendo produtores rurais e povos tradicionais.

No tema controverso, da luta pela terra e questão territorial, os indígenas têm encontrado a resistência não somente dos grandes proprietários de terra, mas da própria comunidade e da opinião pública.

Não bastassem as ameaças de despejo, essas comunidades tem se deparado com o preconceito de parte da sociedade. Os Guarani passaram a ser tratados como “invasores” por parte da sociedade que desconhece o processo histórico e a luta pela sobrevivência dessas comunidades tradicionais. É o que explica o cacique Ilson Soares – do Tehoka Y’hovy, na Vila da Eletrobrás, em Guairá.

“Através da mídia, dos jornais, os grandes produtores de terra conseguiram mudar a opinião da sociedade e a população começou a nos olhar como bandidos. O sindicato rural tem colocado medo em pequenos produtores, espalhando mentiras que iríamos tomar várias terras começando de Guaíra até Foz do Iguaçu”, diz o líder indígena.

Essa chamada “onda de invasões” propagada fica exemplificada em recentes boatos de que os indígenas da região estariam reivindicando uma área de 100 mil hectares. “Nunca reivindicamos uma área desse tamanho, é um absurdo plantarem uma notícia dessa para botar medo nos outros produtores, especialmente nos pequenos. Queremos apenas a formação de GTs [grupos de trabalho] para a demarcação de nossas terras. Queremos uma área para vivermos com segurança com nossas famílias, que possam nos abrigar e vivermos nossa cultura. Tudo que a gente constrói é para mantermos nossa cultura, nossa linguagem. Plantamos nosso milho branco, batata-doce, feijão guarani, nosso amendoim guarani”, argumenta Soares.

Preconceito

Para o cacique, o preconceito de parte da sociedade acaba sendo inevitável. “É natural, primeiro por não conhecerem ou por aprenderem com os próprios pais. É necessário uma compreensão de que não somos novidade, existimos desde o começo da história do Brasil, não somos povos canibais, selvagens ou bárbaros, acima de tudo somos serem humanos que precisam da ajuda da comunidade”, diz.

A área onde vive Ilson Soares é de 40 hectares. Por lá vivem 27 famílias, aproximadamente 100 indígenas.  Há uma ordem de reintegração de posse da área. “Foi ordenada a retirada nossa da aldeia, mas a FUNAI [Fundação Nacional do Índio] apresentou um recurso”, diz o cacique sobre a ordem judicial. Também não há qualquer indicação de área para abrigar essas famílias diante do iminente despejo.

Enquanto esperam o desfecho judicial, os indígenas seguem marginalizados e tratados como “inimigos do progresso”, como descrito em recentes faixas confeccionadas em Guairá com os dizeres: “Invasão guarani não combina com ordem e progresso”.

“Que progresso é esse? É um progresso de quem? Nós não queremos esse progresso, pois o progresso já levou nossos pais, nossos antepassados, nossas terras e parte da nossa cultura”, questiona o cacique Ilson Soares, ao mesmo tempo que conclui seu testemunho.

Crédito: Júlio Carignano

Fonte: blog Sítio Coletivo

http://sitiocoletivo.blogspot.com